
Dizem-me que a vida é severa; eu diria apenas que ela é apressada. Mal nos sentamos à mesa para o banquete da existência, e o garçom do destino já nos traz a conta, antes mesmo que o vinho tenha tido tempo de nos subir à cabeça e nos fazer esquecer as misérias do mundo.
O tempo é um bicho irônico, caro leitor. Quando somos jovens, ele parece um oceano sem margens, uma planície vasta onde o horizonte nunca chega. Engano de olhos novos! A ampulheta não tem amizades nem condescendências. Ela corre com a mesma indiferença sobre o rei e sobre o mendigo, sobre o tédio e sobre a paixão. O que hoje é urgência, amanhã é poeira; o que hoje é lágrima, depois de amanhã é apenas uma linha esquecida numa crônica de jornal, dessas que servem para embrulhar o peixe no mercado.
Esta tal "Vida Severina" que me propuseram narrar tem essa particularidade: ela não espera pela nossa compreensão. Planejamos o próximo decênio com a certeza arrogante dos imortais, enquanto o relógio de parede ri da nossa pretensão. Cada badalada é um pedaço de nós que se desprende, um capítulo que se fecha antes mesmo de ter sido lido com a devida atenção.
Vede bem: a brevidade não está na falta de anos, mas na velocidade com que o "agora" se transmuta em "outrora". A memória é o único consolo que nos resta, mas é um consolo traiçoeiro, que embeleza o que foi triste e apaga o que foi vital. No fim das contas, entre o berço e a cova, o que há é um suspiro prolongado. Se a vida é severa por ser curta, ou curta por ser severa, deixo a dúvida para os filósofos de amanhã — se é que o amanhã terá a paciência de nos ouvir.
Por ora, fiquemos com o relógio. Ele, ao menos, é honesto em sua pressa.